Amor é dor. Amor é dor que dói sem cor. Amor é dor que dói sem cor com muito pudor. Amor é – ok, vou parar com a poesia por agora. O ponto é: amor é um fato universal, e ele pode doer e dar prazer. Para algumas pessoas, o término pode ser libertador e, para outras, uma espiral de confusão e sofrimento.
Sorry, We're Closed trata de temas como amor, toxicidade, autoapreciação e libertação, tanto de formas sutis quanto bem explícitas, alinhados com um estilo gráfico chamativo e um world building interessante. Mas será que isso já basta? Venha comigo em uma jornada infernal.
Michelle leva uma vida pacata e sem graça. Ela trabalha como atendente de um mercadinho nos subúrbios de Londres, tem alguns amigos legais e tenta (inutilmente) se recuperar de um término abrupto com sua ex-namorada, que a largou para seguir carreira como atriz e está fazendo sucesso em uma série popular.
Em uma bela noite, Michelle é acordada de seu sono por uma criatura horrível chamada The Duchess, que tem como único objetivo ser amada. Após negar seu apelo, o monstro a amaldiçoa e a faz ser jogada em uma realidade paralela, entupida de criaturas e ambientação fétida. Assim, Michelle tem apenas alguns dias para lidar com essa trama e se livrar do destino amargo que a aguarda.
A narrativa de Sorry, We're Closed é um de seus maiores trunfos, trazendo personagens interessantes e dramas vivos para as vidas de jovens adultos como a protagonista. Fica ainda mais intrigante quando certos conhecidos da garota não são quem ela pensa que são, revelando-se demônios ou anjos com seus próprios problemas sociais e pessoais.
É ainda mais legal que a dicotomia celestial não fica no novo estereótipo de “Céu mau; Inferno bom”, mostrando que ambos os lados são falhos, mas recheados de personagens com boas intenções. Os inimigos demoníacos (e pobres coitados que foram amaldiçoados por Duchess) têm designs legais. Nada que seja revolucionário, mas que mostra a deturpação do Inferno.
E falando neles, a maldição conferida se chama Third Eye, um olho que brota na testa de Michelle e a permite transitar entre o plano real e a realidade deformada, além de revelar a real identidade de seus amigos. A forma como o mundo muda completamente com o andar ativo do Olho e como as coisas recebem diferentes descrições é muito legal e traz bastante personalidade para o jogo.
Para se defender das abominações profanas, ela tem à disposição (inicialmente) um machado e uma pistola. Normalmente, os demônios são invencíveis contra ataques, porém, usando o Third Eye, não apenas ficam congelados temporariamente como também ficam transparentes, revelando seus corações (seus únicos pontos fracos), precisando ser acertados três vezes para serem destruídos. Um método interessante de luta e que vai de acordo com o desespero de um survival horror, mas que começa a ficar frustrante pela mira ruim e ao ter mais de um inimigo na tela, o que é bastante frequente. Além disso, é bem chato que não dá para correr com o Third Eye ativado, nem andar com a mira em primeira pessoa, além de ser um pouco lenta para ser ativada.
Eu tenho um enorme ponto fraco por jogos low-poly e Sorry, We're Closed acerta com firmeza neste tópico, trazendo uma ambientação bastante legal e bonita com seus gráficos limitados, seja no mundo real ou no alternativo. Além disso, o jogo emana a aura de retro horror, como Silent Hill e Resident Evil, com câmera e movimentos travados (a opção de jogabilidade tank é horrível, contudo. Ainda bem que ela é só opcional).
A trilha sonora não é nada de especial, usando mais o silêncio e sons ambiente para transmitir a solidão dos lugares. As músicas de chefão, por outro lado, são muito boas. Infelizmente, o jogo está completamente em inglês, porém a performance é muito boa. Exceto pelo carregamento inicial um pouco demorado, o game não tem carregamentos, especialmente para transitar entre fases, o que é muito legal.
O mesmo não posso dizer tanto do design de personagens, ao qual eu tenho… pensamentos mistos. Por um lado, eles são bastante carismáticos e cheios de detalhes legais, especialmente com um elenco tão diversificado na comunidade LGBTQIA+, sem contar que todos os personagens são legais (bom, quase todos. Darrel é um saco) e suas orientações não definem quem eles são, apenas sendo uma parte de suas vidas.
Por outro, vou ser honesto: estou um tanto cansado de como toda narrativa envolvendo a comunidade tem que estar extremamente sexualizada por impacto, além de uso forte de elementos de contracultura, como piercings, tatuagens e outros apetrechos que, no papel, parecem legais, mas, no final, parecem mais “tentando forte demais para parecer legal” (o famoso “edgy”). Em Mediterranea Inferno (outro jogo que analisei), a sexualização faz bastante sentido, especialmente para um dos personagens e seus dilemas de atenção. Aqui? Pode colocar como desculpa que é por causa do pecado da Luxúria, mas ficar marretando designs tão reveladores só mantêm os estereótipos e visões retrógradas conservadoras que perseguem a comunidade com pensamentos como “jogos assim só fazem isso”. Como eu disse, são pensamentos mistos: gosto de como os personagens aparecem, não vou negar, porém também fica explícito que a maior parte é para se mostrar sem ter uma necessidade única além de causar furor, algo digno de desenhos feitos no Tumblr ou X (antigo Twitter).
Welcome to Hell… MOTHERF–
Mesmo com seus erros e engasgos, não me levem a mal: Sorry, We're Closed é um jogo ótimo e bastante divertido. Ainda mais com uma campanha relativamente curta e múltiplos finais, com certo backtracking que pode incomodar alguns, mas que funciona de novo em par com a proposta.
Com certeza um jogo bastante recomendado sobre a comunidade LGBTQIA+ que, mesmo com algumas escolhas de design, consegue ser bastante divertido e único, trazendo horror e glamour para as ruas de Londres. Amor é horror, um glamour com dor, sem cor com pavor.
- Michelle é uma protagonista muito legal. Os personagens são interessantes e possuem excelente representação LGBTQIA+;
- Clima de horror imersivo;
- Ambientação low-poly muito bem feita;
- Trilha sonora boa, com destaque para as músicas de chefão;
- Mecânica Third Eye é única e utilizada muito bem;
- Múltiplos finais que impulsionam fator replay;
- Método de execução de inimigos é bastante satisfatório;
- Design de personagens e mundo muito bem feitos.
Contras
- Jogabilidade tank é horrível (opcional, pelo menos);
- Combate é legal, mas a mira pode ser um problema quando muitos inimigos estão em tela;
- Falta de tradução para português brasileiro;
- Certas ultra sexualizações podem perpetuar estereótipos da comunidade.
Sorry We're Closed — PC/Switch — Nota: 8.5Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Alessandra Ribeiro
Análise produzida com cópia digital cedida pela Akupara Games