Muitos de nós crescemos com uma educação voltada à ótica dos papéis de gênero, as coisas “de menino” — jogos eletrônicos aqui inclusos — e “de menina”, conceito que o movimento feminista vem tentando erradicar desde o início do século XX. Aos poucos, as mulheres têm conseguido se firmar em lugares que, até alguns anos atrás, eram vistos como “pertencentes” aos homens.
As mudanças propostas pelo feminismo, por muitas vezes mal-vistas pela sociedade como um todo, são de suma importância para reavaliar a equidade e a igualdade, a priori, entre homens e mulheres nos mais diferentes âmbitos. Diversos estudos ao longo dos anos têm debatido questões sobre a diferença entre “o cérebro masculino” e o “cérebro feminino”.
Isto é, dentro do campo da ciência, como os esteroides sexuais afetam o modo de pensar de homens e mulheres — ressalta-se aqui que são estudos ligados ao sexo biológico e não à identidade de gênero das pessoas. Mesmo que as pesquisas não tenham chegado, ainda, a um veredito, muitos dos resultados desses estudos já são vistos cotidianamente dentro do âmbito social, com as mulheres sendo majoritárias em certos campos, enquanto os homens, em outros.
Ótimos exemplos a respeito dessa diferença entre o modo de pensar de homens e mulheres são as análises de DanMachi e Variable Barricade escritas por mim (aqui e aqui) e pelo meu colega Ivanir (aqui e aqui). As formas como nós dois abordamos os elementos nesses títulos diferem significativamente, mesmo que tenhamos, vez ou outra, discutido sobre os conteúdos neles presentes. E doa a quem doer, nem eu e muito menos o Ivanir estamos certos ou errados ao exprimir nossas opiniões.
Frente a isso, um assunto que vem ganhando cada vez mais destaque no universo gamer é a representatividade feminina. Ele está longe de ser um tema novo ou atual, pois já existe há muitos anos, mas foi apenas recentemente que chegou aos videogames; inclusive, na posição de mulher que gosta de jogos eletrônicos, me entristece precisar voltar neste assunto em pleno século XXI.
Chega a ser igualmente curioso e triste perceber que Sony e Microsoft detêm muito mais protagonismo feminino atualmente do que a Nintendo. Pensando nas IPs de até cinco anos atrás, Sony tem Aloy e Ellie, enquanto a Microsoft, Cortana e Kait; as duas empresas dividem ainda a Lara Croft. Enquanto isso, a mais recente IP da Nintendo com uma protagonista feminina é Metroid, mas, se formos parar para pensar, os carros-chefes da Big N continuam sendo homens (Mario e Link) — aqui, eu poderia ter mencionado Bayonetta também, porém ela não é exclusiva dos consoles da Nintendo.
Voltando ao século XX, a Sega já tinha o costume de lançar jogos com uma mulher que podia ser escolhida como protagonista, algo que pode ser visto em Alien Storm, Streets of Rage e Golden Axe, como bem lembrado pelo meu amigo Mauricio Katayama. Aliás, aproveitando essa viagem no tempo, também acho pertinente mencionar que por anos as personagens femininas eram vistas apenas como “colírio para os olhos masculinos”, basta ver as vestimentas de muitas delas para entender.
Por mais que muitas heroínas continuem a se vestir de forma exacerbadamente sexy, como é o caso da própria Bayonetta, elas estão longe de serem simples fetichização masculina. Outras personagens, como as lutadoras de Mortal Kombat, também passaram por várias mudanças visuais, trocando seus trajes cheios de sexy appeal por outros mais condizentes com o universo no qual existem.
Contudo, não vou me delongar muito na questão de personagens femininas e fanservice, até porque eu também gosto e consumo diversas mídias que fazem uso (muitas vezes exagerado) do recurso — além de ser um assunto que foge um pouco da raia neste momento. Quem sabe, em uma próxima oportunidade, eu volte a abordar o tema.
Para fechar esta discussão, quero deixar bem claro que mulheres também demonstram interesse em videogames dos mais variados gêneros. Mulheres também podem — e devem! — ser streamers e produtoras de conteúdo voltados ao universo gamer e participar de competições no cenário de eSports.
Oras, se homens podem ser “especialistas” em vários deles, por que nós, mulheres, também não podemos? Doa a quem doer, o universo gamer não é exclusivo, e muito menos pertencente, apenas aos homens.
Revisão: Cristiane Amarante